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sexta-feira, novembro 21, 2003

 

De olhos bem abertos



Pra ser bem sincero, sempre tive vontade de conferir o que acontece dentro daqueles famosos lugares onde rolam sessões corridas de sexo explícito a partir do meio-dia. Desde o tempo em que meu pai passava de carro do lado de um cine erótico na volta do colégio e eu via pela janela aqueles cartazes marotos. Tudo bem que naquela época um cinema pornô parecia ser tão interessante quanto ter um Playcenter no quintal de casa. Atualmente a minha concepção era totalmente diferente, claro, bem menos ingênua. Mas por mais certeza que nós possamos ter mesmo sem nunca ter ido, de que o que o pessoal apronta no escurinho não seja lá muito edificante, sempre fica aquela pontinha de curiosidade.

E como diz aquele velho chavão, melhor se arrepender de ter feito ao invés de ficar eternamente na dúvida de como poderia ter sido caso fizesse (é por aí). Sendo assim, resolvi ir num cinema pornô. E fui. E agora posso dizer... Não vá.

Por maior que seja a sua curiosidade, por maior que seja seu espírito de aventura, por maior que tenha sido a quantidade ingerida de cachaça e/ou substâncias estupefacientes, em hipótese alguma, jamais entre num cinema pornô, nem que seja pra fugir do satanás. Se por um acaso o destino maldosamente lhe oferecer uma entrada grátis numa sessão erótica como sua última atividade em vida, peça clemência, um picolé de limão, peça pra adiantar a morte mas não aceite que é pegadinha. Sério, não vá. Por favor, não vá. Sério.

Mas vamos voltar no tempo. Começar do começo.Eu necessitava tanto de uma matéria de altíssimo impacto, aquecer o sangue de jornalista do submundo que corre em minhas veias que acabei passando da conta. Baixou em mim o cabôco Zé Malícia e ordenou que eu finalmente matasse a curiosidade sobre o cinema pornô. Meu destino estava traçado, eu deveria escrever uma reportagem a respeito. E como eu definitivamente não sou de contrariar as forças do além, aceitei a empreitada. Mas com uma condição, que me fosse permitido convidar alguém para realizar tarefa de tamanha envergadura. Aliás, o medo era esse mesmo, o tamanho da envergadura que eu podia acabar encontrando nessa reportagem. Dessa forma pedi para que o cabôco Zé Malícia fechasse meu corpo, não sou bobo nem nada, e não é que ele negou? Disse que se fechasse meu corpo limitaria muito o meu campo de percepção do que acontece num cinema erótico. Filha da puta, me tirou pra viado. Mas me fiz de desentendido, afinal, sei que ser entendido nessas coisas não é bom sinal. Mas tudo bem, pelo menos eu não cairia na roubada sozinho.



Não titubeei em convidar o Abud. Para quem não conhece, Rodrigo Mendes Abud é o presente e o futuro do jornalismo brasileiro. Rapaz de faro aguçado para reportagens polêmicas, certamente seria a companhia perfeita. Liguei na noite anterior para o Rodrigo, disse a ele que se tratava de uma matéria diferente, pra chacoalhar as estruturas da vadiagem, e que eu precisaria dos serviços dele para me acompanhar e bater umas fotos. Quando revelei que iríamos num cinema pornô o mesmo não se fez de rogado aceitando de prima. Amigos de longa data nem precisaria, mas era de bom tom frisar que se tratava de um convite profissional, e não uma cantada.

Nos encontramos às 16hs e seguimos para o Cine São João, centro de Curitiba, perto da Praça Rui Barbosa. Chegando ao local fizemos como manda o figurino. Discrição, movimentos pensados, mapeamento visual do ambiente e checagem das rotas de fuga. Por mais bizarro que possa parecer, era necessário se sentir bem, tranqüilo, à vontade, como se estivéssemos acostumados a sair do serviço e dar um pulo no São João pegar um filmote. Como ensina o Sebastião, numa relax, numa tranqulia, numa boa. Inseridos no contexto do local nos dirigimos ao guichê. E aí se deu a primeira polêmica da tarde. Já que era a primeira vez que eu assistiria um filme pornô com um monte de desconhecidos queria que fosse em alto estilo, classe A, com categoria, pagando meia!! E mesmo com um calhamaço de ingressos meia-entrada a dois palmos dos nossos narizes o bilheteiro bateu o pé afirmando que era preço único. Cinco reais. Protestamos, o cara explicou mal e porcamente qual a origem do bolo de ingressos meia-entrada mas não arredou. Como poderíamos precisar da ajuda dele a qualquer momento optamos pagar o preço estipulado.Passamos a roleta, subimos uma escadaria e avistamos um corredor vazio e extremamente sombrio. Aí amigo, quem tem, tem medo. Entre risadas nervosas e um mix de curiosidade e cagaço seguimos em frente. Não desistiríamos a poucos metros de completar a façanha.



O Cine São João é grande. Corredores compridos, espaçosos, longe de ser um cinema meia tigela. A alguns metros da entrada da sala de projeção o nervosismo era intenso, mas graças ao bom Pai todas as nossas piores expectativas acerca do local caíram por terra. Tudo que a gente tinha pensado de mal não tinha nada a ver.Era muito pior. Um milhão de vezes mais desgraçado.
Vencida a última escada a realidade era acachapante. Entre bêbados, maloqueiros, travestis e figuras nem um pouco confiáveis, muitos senhores de idade. Antes de entrar é necessário passar por uma espécie de ante-sala, um hall de putaria, onde todos ficam se encarando com olhos de desejo.Entre a recepção e a sala havia uma cortina fina, suja, cheia de marcas de batom que vencida pelo vento nos proporcionava uma visão nem um pouco agradável. Aliás, visão é modo de falar, pois a grande verdade era que não dava pra enxergar porra nenhuma! E se tem um lugar pra enxergar porra é justamente um cinema pornô. Eu e o Abud ficamos pescoceando do lado de fora pra dar uma espiadela na película. Por diversas vezes tentamos vencer os enigmas da escuridão, mas precavidos que somos optamos por segurar a onda e, ao invés de não enxergar porra nenhuma, sentí-la ao sentar ou esbarrar na parede.



Indignados com a precaríssima iluminação e temendo pelo pior fomos reclamar ao bilheteiro. - Aí bróder, não dá pra enxergar nada lá dentro.- Escuta só, a manha é entrar na sala e deixar a vista acostumar...Em dúvida se aquilo era um conselho ou a senha para o inferno não desistimos do nosso objetivo, conhecer um cinema pornô, e seguimos em frente. De volta ao ambiente de descanso nos deparamos com um véio de vestido colado preto, peruca ruiva descabelada e batom todo borrado. Aquilo feriu nossa moral. Foi um sinal para que freássemos nosso ímpeto de penetrar (enquanto espectador) na sala. Definitivamente o lugar dos amadores era pelos corredores do São João. Embora o clima de putaria fosse total só não imaginávamos que isso pudesse ser levado ao pé da letra. Nos aproximamos de um mocó para que eu ajustasse a máquina fotográfica pra bater sem flash, diminuindo substancialmente a chance de sermos linchados, e nos deparamos com a nádega desnuda de um ser postado de cócoras fazendo, o que calculamos, um trabalho de sopro para outro ser. Pensei em ir ao banheiro ajustar o flash mas fui impedido pela muáfa de mijo e que tais que bombava lá de dentro. Sem condições. Nem pra pentear o cabelo. E mais, muitas filas pra, abre aspas, urinar, fecha aspas.Mais uma vez voltamos para a salinha do pênis flácido.

E como estávamos lá a trabalho, e não a lazer, resolvi utilizar toda a minha perspicácia e faro jornalístico para realizar uma breve consulta de preços. Como eu não sou otário, e levando-se em conta que por pior que seja nos encontrávamos num local de hormônios em ebulição, utilizei todo o meu charme e a velha técnica sensual do chamado com os dois dedinhos para solicitar a presença do que parecia ser uma prostituta. Enquanto isso o Abud tentava distinguir o quê era o quê na telona grande do cinema. Chocado com ar carregado do local, qual não foi a minha surpresa ao bater um papo super agradável, recheado de simpatia e marotice com o que parecia ser uma prostituta. Sem delongas, segue o menu:- Chupeta: cincão (com camisinha).- Programa: deizão.Agradeci a presteza do que parecia ser uma prostituta e deixei o que parecia ser uma prostituta faturar. Agora o melhor, o que parecia ser uma prostituta andava pra lá e pra cá com um rolo de papel higiênico na mão. Gente coisa é outra fina. Aliás, pra fechar, o que parecia ser uma prostituta afirmou que era uma prostituta. Preferi não conferir a documentação pra não me surpreender, melhor sair de lá enojado com o cheiro de rola do que com a lembrança de ter visto uma em carne e pele a poucos centímetros de mim.



Decididos a não arriscar a pele, ou pior, as pregas, entrando na sala de projeção, eu e Abud resolvemos dar um tempo no lounge pra sair fora. Cinco minutos por ali e nos sentimos como o Luke Skywalker em Guerra nas Estrelas naqueles bares no meio da galáxia com aliens de todos os filos.Muitos velhos, muitos caras de regata e bonezinho, muita malária, alguns sujeitos totalmente insuspeitos e toda sorte de travestis. Mas não pense que travesti lá é tipo Roberta Close, pra você ter uma idéia, no São João a Rogéria ia estar por cima da carne seca. Ou da carne dura, como queiram. O traveco mais jeitoso que passou por nós tinha silicone na cara. Sim, no rosto, boca deformada de silicone de camelô. Corpo idem, podre, caindo os pedaços. O pouco que conseguimos ver do filme de fora da caverna resumiu-se aquele básico de filme pornô. Close máximo de uma penetração. Graças ao bom pai era uma relação heterossexual. Como vimos apenas flashes do filme vou ficar devendo uma avaliação mais caprichada, se o roteiro era bem amarrado, se o filme tinha fotografia densa, diálogos precisos e enxutos etc. Agora, falando sério, ou melhor, falando mais sério pois tudo que eu disse é a pura verdade. É impossível sair de lá sem ficar um pouco deprimido. Eu sei que a vida não é fofinha, e que pra muita gente aquilo significa, vá lá, um pouco de diversão. Mas mesmo assim é terrível. Um submundo com tudo que tem direito.

Andamos por todo o cinema, são duas salas, e dá pra afirmar mesmo sem ter conseguido visualizar direito que o Cine São João é um cinema fantástico. Uma sala de projeção gigante, com o teto altíssimo, a tela fica lá no topo. E outra igualmente grande, parecida com as salas do Estação Plaza só que maior, as poltronas dispostas em degraus, como numa arquibancada de estádio de futebol. Para chegar a essa segunda sala você sobe uma escada que eu e o Abud até brincamos dizendo que nos sentíamos no Maracanã. Um puta de um cinema absolutamente abandonado. Paredes sujas pintadas de preto, várias portas com cadeados gigantes, infestado de mosquitos. As fotos que tiramos, na pressa pra que ninguém visse, saíram tremidas. Mas vendo bem, não são as fotos, mas a realidade é tremida lá dentro. Parece um lugar habitado por fantasmas. Quando fomos lá fazia um lindo dia de sol em Curitiba, e a sensação foi horrível, imagino o que devam ser aqueles corredores desertos do São João num dia de chuva, raios e trovoadas.



Eu fico pensando se todas aquelas pessoas que encontrei lá tem mulher, filho, esposa, foram casadas, já namoraram, enfim. Você pode estar pensando, poxa, uns vão lá pra masturbar, outros pra serem masturbados, uns vão dar, outros comer e ponto final! Sim, pode até ser, mas é bem mais complicado do que parece. Só indo lá pra saber.Mas não vá.

Ao sairmos da sala eu e o Abud batemos um papo com o bilheteiro. O cara trabalha lá há dez anos, o espaço é alugado e quem banca o cinema é um empresário de São Paulo. Segundo o bilheteiro não dá prejuízo. São poucos funcionários (cinco, entre eles uma senhora de uns 70 anos), a projeção é em vídeo, não gasta luz (também, com aquele breu que é lá dentro) e a manutenção é quase zero. E se até hoje o cinema não virou um bingo ou uma igreja evangélica, como 98% dos cinemas do centro de Curitiba, é porque funciona. Segundo ele também os incidentes são muito poucos. Resumindo, muita gente ainda vai tocar uma no São João.