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quarta-feira, setembro 01, 2004

 

O homem que estava lá


A incrível história do fã que presenciou o último show de seu ídolo


Inauguro com esse texto uma parceria que demorou pra acontecer. Dudu Munhoz, catedrático em punk rock, colunista do Bule (entre outros sites), e bróder de alta categoria, faz sua primeira aparição neste espaço numa colaboração fantástica. Descobriu um amigo que esteve no último show de Raul Seixas e coletou todas as informações a respeito desse episódio memorável. Eu fiquei com a tarefa de organizá-las num texto. O resultado vocês conferem abaixo.



Moacir Leal, apelidado Slash, graças ao período em que ostentou uma vasta cabeleira idêntica à do guitarrista do Guns and Roses, debutou no roque há dez mil anos atrás, num show da Blitz em 1984. Com 13 anos, foi uma ótima alternativa para interagir e se enturmar com a molecada marota de sua área, os famosos prédios redondos do Capanema. O primeiro show de uma lista extensa de passagens roqueiras na vida de Slash, um homem dedicado a esse estilo musical, o embalo dos jovens.

Em 1986, viajou a São Paulo num feriado de final de ano, e na terra da garoa foi apresentado a sua maior paixão musical, fruto de devoção dos tempos mais remotos até os dias de hoje. Raul Seixas. Mesmo com 15 anos, o guri já possuía uma grande lista de ídolos roqueiros, tais como os estrangeiros Black Sabbath, AC/DC e Nazareth. Porém, na curtição das fitinhas de Raulzito que trouxe de São Paulo, a música do brasileiro foi se sobressaindo, gerando um fanatismo cada vez maior. De volta à Curitiba, tratou de adquirir toda a discografia disponível do Maluco Beleza. Com o tempo, foi garimpando discos raros, gravações de programas de rádio entre outros souvenirs.

Mas não há adoração por um ídolo que sobreviva intensa sem que seja consagrada com o comparecimento a uma apresentação ao vivo. E Slash saciou esse desejo. Esteve presente na última apresentação de Raul Seixas em Curitiba, no dia 12 de agosto de 1989. Slash é o homem que estava lá. No entanto, antes de desvendarmos todos os detalhes dessa apresentação histórica de Raulzito, vamos passear um pouco pela vida de Slash, um passado recheado de histórias incríveis em momentos de tosquêiras do arco da velha.

Curriculum Toscae




Certamente, são poucas as pessoas que podem se vangloriar de possuir um currículo de shows tão nababesco. Quer saber, creio que nem os garçons da Lidô ostentam tamanho background. São muitas as apresentações memoráveis em que Slash respondeu presunto. Sendo assim, vou elencar aqui apenas os highlights. As turmas do gargarejo clássicas. Amigo, segura o fenômeno.

Show do Bozo e Gaúcho da Fronteira no Clube Cultural de Curitiba. Rewind. Bozo E Gaúcho da Fronteira, porra! Eu disse E Gaúcho da Fronteira. Um mega evento reunindo esses dois baluartes da cultura canarinho juntos, numa apresentação pra lá de surreal. Vá dizer. Sócio do clube, Slash não teve dúvidas em marcar presença num show de tamanha magnitude totalmente de grátis. Bons tempos em que o cultural ia além do nome da sociedade. Quanto aos detalhes, pouca coisa, Slash não tem certeza se o palhaço em questão era o Bozo apresentador de bingo ou o motor aspirado. Fica a questã.

Mas segue o baile. Imediatamente após um dos shows mais toscos que a terra das araucárias já recebeu, vem outra pedrada. Show da Angélica no Couto Pereira. Na época servindo o Paraná trabalhando no Banestado, Slash deu um disfa e marcou presença nessa celebração infanto-erótica. Duas tampinhas (ou seriam champinhas?) de guaraná eram a senha de entrada. Chegando ao local, a decepção. O palco era no meio do campo, e o público ficava nas arquibancadas. Trocando em miúdos, mais da metade do público presente não pôde atingir o principal objetivo, avistar e analisar a barata na perna da ninfeta platinada esvoaçante, região na qual atualmente o Luciano Huck passa aquela naréga irada dele (se passa).

Acho que já deu pra aprovar o guri. Shows de Bozo e Gaúcho da Fronteira juntos, e da Angélica, é top de linha em matéria de apresentações lendárias. Mas Slash tem currículo de CEO (quer dizer chief executive officer, o popular pica grossa, explicando pra quem ainda fala olerite) de multinacional quando o tema é lasquêira. Ainda em matéria de shows, Ira! na Moustache Sound & Dance e o começo de um show do Biquíni Cavadão que não continuou pois o vocalista estava sem condimento. No ramo empresarial, foi proprietário e operador de uma fotocopiadora que faliu. Trocou 11 vezes de endereço desde 89, morando de todas as formas possíveis e imagináveis. Com destaque para a vez em que hospedou um argentino que fazia malabares, dando guarida para que a praga que assola os sinais de trânsito nos dias de hoje pudesse ser gerada no seio de seu próprio lar.

O dia em que Terra parou




Concluído um mini Essa é Sua Vida com Slash, vamos ao que interessa. Tudo começou numa enfadonha manhã de sábado em 1989. Se o rádio não toca, pelo menos anuncia, e a notícia apocalíptica veio através das ondas sonoras. Raul Seixas faria um show em Curitiba, dia 12 de agosto, no Ginásio do Atlético. Sem que houvesse tempo para se recuperar do transe e sair para adquirir o passaporte da alegria, Slash foi surpreendido por sua mãe, Dona Alzira, chegando em casa com o ticket em mãos. Foi algo como ganhar a loteria da Babilônia. A materialização de um sonho estava cada vez mais próxima.

Raulzito estava em turnê divulgando seu mais novo disco, Panela do Diabo, uma empreitada com Marcelo Nova. O novo álbum ainda não havia chegado em Curitiba, porém, a encomenda da bolacha já havia sido solicitada por Slash na loja Rei do Disco. Marcelo Nova, roqueiro adorado por todas as Silvias do Brasil, assumira na época a responsa de cuidar de Raul Seixas, fazendo às vezes de pai, empresário e colega de banda, além de companheiro de bagulho que ninguém é de ferro.

Chegado o grande dia, Slash escolheu o modelo clássico para comparecer a festa de gala, calça jeans, camiseta, boné, e jaqueta jeans U.S. Top, o tradicional traje esporte fino dos roqueiros. Chamou Nilson, parceiro de trampo no Banestado, pegaram o trem das sete e partiram para o local do show. O Ginásio do Atlético, anexo ao estádio Joaquim Américo, posto na chon anos depois, sempre foi palco de eventos do mais alto gabarito. Tais como bailes de carnaval de gosto duvidoso, pista de patinação, entre outros. Desta feita, seria palco de um novo aeon, uma nova era na vida de Slash.

Ao pintarem no local, os dois se depararam com uma enorme fila para comprar ingresso. Fato que motivou uma série de idéias caóticas na mente de Nilson. Inconformado com a fila gigantesca, Nilson sugeriu que os dois entrassem na moral, tocando entre as canetas da burocracia. Idéia que foi prontamente rechaçada por Slash, temendo que a peripécia ilícita lhe custasse a presença no show da sua vida. Como vovó já dizia, melhor prevenir do que se foder. E assim foi feito.

Se não bastassem as idéias caóticas de Nilson, Slash sentia ainda o peso da preocupação com o estado de saúde de Raulzito. Dois dias antes, no show em Ponta Grossa, Raul despencou em pleno palco na primeira música, totalmente debilitado. Ciente que o roqueiro era movido a álcool, e muito provavelmente estaria pra lá de Marrakesh no show, o fã torcia para que pelo menos umas cinco músicas fossem executadas. Comparando com Ponta Grossa, já estariam no lucro.

Na fila a rapaziada enxaguava a caveira com o famoso tubão, bebida obrigatória em shows de róque, o embalo dos jovens. Nossos heróis não ficaram atrás, e faziam gut-gut num mix de vodka e Coca-Cola. Escaneando a turma, calculou e dividiu a presença em 65% homens e 35% mulheres, a maioria acompanhadas. O esperado esquema de segurança, muito comum em shows de roque na época, devido a grande concentração de drogados subversivos cultuadores do satanás, não se confirmara. Apenas aquela revista protocolar, sem necessidade de se tirar os sapatos ou receber um apalpo na genitália. Nada de polícia no local. O que gerou um inconformismo coletivo no público, devido ao vacilo de não ter levado uma porção servida de estupefacientes com medo do Grande Irmão.

Vencida a batalha da fila, os dois adentraram ao ginásio, que pouco mais de uma hora antes do início do show estava totalmente lotado. Resolveram ficar do lado direito do bar, fazendo o que o diabo gosta. Embora a nata dos sevandijas estivesse concentrada no local, nenhum desentendimento foi registrado, todo mundo naquela fuleiragem sadia. Pouco tempo depois, Marcelo Nova subiu ao palco, abrindo o show.

Meia hora de róque, com músicas de seu trabalho solo e clássicos de sua antiga banda, o Camisa de Vênus, e Marcelo largou a bomba, anunciando que iria chamar ao palco o rei do róque no Brasil. Foi a senha para o ginásio explodir em êxtase absoluto. Histeria coletiva. Transe ecumênico. A gritaria das moças era ensurdecedora, reforçada pelos urros dos rapazes. Uma nuvem composta pelo bafo de tubão batia no teto do ginásio, se transformando em estalactites de chachaça.

Slash e Nilson resolveram mudar o posicionamento, ficaram na frente do palco, poucos metros antes dos seguranças de camisetas vermelhas. A banda que acompanhou Marcelo Nova, composta de um tecladista, um baterista, um baixista e um guitarrista permaneceu no palco para o show de Raul. A lenda surgiu atrás das cortinas, caminhou vagarosamente, Ray-Ban e roupa branca, parecendo um proxeneta. Monstruosamente ovacionado pelo público, abriu o set com Rock and Roll, Pastor João e a Igreja Invisível e Be Bop A Lula, músicas do disco recém-lançado, Panela do Diabo. Empunhando uma guitarra bege, Raulzito extraia singelos Lá e Ré maiores.

Vieram os hits, um desfile interminável de clássicos, todos cantados a plenos pulmões pelo público. Cowboy fora da Lei e Rock das Aranhas foi dar milho pra bóde, levando todos às raias da loucura. O público dançava ao som do róque fantástico de Raul, sentindo caimbra no pé. Mas nenhum momento superou a execução de Viva a Sociedade Alternativa, certamente o ápice da apresentação. Cumprindo um ritual tradicional, Raulzito saiu do palco, voltou agachado, insinuante com um pergaminho em mãos. Mandou o discurso clássico, exaltando as maravilhas de uma sociedade perfeita, livre, em que todo homem teria o direito a viajar para qualquer lugar, pois o planeta é o nosso passaporte, que o que faltava era cultura para cuspir na estrutura. Mensagens que deixaram o público como se estivessem num eterno carnaval.

E dá-lhe que dá. No meio de Metamorfose Ambulante, emendam Metrô Linha 743, Marcelo Nova saca repentinamente duas bazucas, acende, puxa uma bela tragada que ilumina a frente do palco mais do que os spots de luz, e passa uma para Raulzito. Os roqueiros baianos saboreiam a perninha de grilo durante toda a canção. A banda volta a tocar Metamorfose e os baseados são oferecidos ao público. Respeitosamente, todo mundo deu a sua bolinha, numa espécie de ritual de eucaristia a la Cheech e Chong. Slash optou por não reviver essa passagem da bíblia jamaicana, a divisão do entorpecente, se limitando ao espanto de estar presente em oportunidade tão insana.

Enquanto os cigarrinhos do capeta ainda circulavam e a muáfa se adonava do local, Raul e Marcelo viraram os microfones para o público, deixando os últimos versos de Metamorfose a cargo da geral. E deixaram o palco. Ao mesmo tempo em que algumas moças furavam o cordão de seguranças no afã de conferir de perto se a cobra criada do Raul ainda estava na ativa ou se teriam que pôr as aranhas pra brigar.

A areia da ampulheta se foi. O show já era parte do passado, um momento mágico na vida de Slash que se tornaria para sempre o dia da saudade.

Quando acabar o maluco sou eu




Pouco mais de uma semana depois, no dia 21 de agosto de 1989, numa manhã de segunda-feira ensolarada em Curitiba, Slash recebeu um telefonema de sua prima que morava em São Paulo. Raulzito não suportara uma pancreatite aguda e havia falecido. Uma notícia infelizmente esperada desde o início das complicações sérias de Raul Seixas com o alcoolismo e a evidente falta de condições do ídolo para deixar e suportar o vício. Slash fez o possível para comparecer no enterro, que seria realizado em Salvador, mas não teve jeito. Acabou permanecendo em Curitiba, mas fez uma promessa, uma última homenagem. Durante um mês, acordaria um pouco mais cedo e antes de seguir para o Banestado ouviria um disco qualquer de Raul da primeira a última faixa.

O show em Curitiba, no Ginásio do Atlético, foi provavelmente a última vez que Raul Seixas subiu num palco. Comenta-se que nesses 9 dias entre o show no Ginásio do Atlético e a morte de Raul, uma apresentação em São Paulo teria acontecido. Porém, não há confirmação. De certo, que a lenda do róque canarinho deixou sua marca inconfundível na capital paranaense, numa apresentação memorável, mexendo com as coisas do coração, marcando definitivamente a data 12 de agosto de 1989 como o melhor dia da vida de Slash.